Vou fazer minha fertilização: isso pode aumentar as chances de malformação do meu bebê?

Um tema comum que preocupa as “tentantes” no início do tratamento de fertilização in vitro é se esse tratamento pode aumentar as chances de malformação do bebê. Há uma preocupação bem antiga a respeito desse tema e muitos estudos já foram e são realizados para garantir a segurança das técnicas de reprodução assistida. Além disso a reprodução humana conta com o diagnóstico genético pré-implantacional (PGD) que pode aumentar a segurança do tratamento.

A malformação do bebê pode ocorrer tanto em gravidez espontânea quanto em gravidez através de FIV e apresenta uma incidência de 2 a 5% das gravidezes em geral. A alteração pode estar presente no óvulo, no espermatozoide ou pode ser aleatória (ao acaso). A malformação congênita (quando o bebê já nasce com a alteração) inclui:

  • Anormalidades estruturais: gastrointestinais, urogenitais, musculoesqueléticas, cardiovasculares, paralisia cerebral
  • Anormalidades bioquímicas: por exemplo, a alteração de proteínas importantes para o bom funcionamento do corpo
  • Anormalidades cromossômicas e síndromes genéticas: Síndrome de Down, Síndrome de Patau, Síndrome de Edwards, Síndrome de Turner e Síndrome de Klinefelter. Essas síndromes geralmente são raras e algumas são incompatíveis com a vida.

 

Um fator que devemos levar em consideração é que os casais que procuram as técnicas de reprodução assistida geralmente são inférteis ou sub férteis, podem naturalmente apresentar um fator de risco aumentado para alteração genética de gametas (óvulo e espermatozoide) e, portanto, risco aumentado para malformações fetais quando comparados a casais férteis.

Outro ponto é que as mulheres que procuram a fertilização in vitro, geralmente são mais velhas. Já é comprovado cientificamente que a progressão da idade diminui a fertilidade na mulher e aumenta as chances de ela ter um filho com alterações genéticas.

Um estudo australiano referência “Reproductive Technologies and the Risk of Birth Defects” (em Português, Tecnologias Reprodutivas e o Risco para Defeitos no Nascimento) publicado em uma das maiores e mais conceituadas revistas científicas do mundo “The New England Journal of Medicine” avaliou 308.974 nascimentos durante 16 anos.

Esse estudo dividiu os nascimentos da seguinte maneira:

  • Filhos de mulheres que realizaram a técnica de FIV ou de ICSI
  • Filhos de mulheres que tiveram gravidez espontânea (casais férteis)
  • Filhos de mulheres que tiveram gravidez espontânea, porém, já tinham um bebê através de FIV
  • Filhos de mulheres que tinham histórico de infertilidade, mas que não realizaram nenhum tratamento de reprodução assistida para engravidar
  • Filhos de mulheres da população geral, sem histórico de infertilidade ou tratamento de FIV

 

O estudo concluiu que o risco para malformação congênita em bebês nascidos através de FIV é ligeiramente, porém, significativamente maior (8,3%) do que bebês nascidos através de gravidez espontânea (5,8%) para gestação única.

Após ajustes na análise dos dados para fatores que poderiam influenciar o resultado como idade, gravidez única/múltipla e condição de fertilidade/infertilidade, a associação de FIV e malformação congênita não foi significativa. O estudo também concluiu que não houve associação entre FIV e aumento de risco para síndromes genéticas.

O principal achado desse estudo é que mulheres que apresentavam infertilidade prévia sem nenhum tratamento através de técnicas de reprodução assistida tinham os mesmos riscos de ter um bebê com malformação congênita do que mulheres que realizaram o tratamento de FIV. Em outras palavras, o tratamento de FIV não é o real responsável pelo aumento dos riscos para malformação, mas sim, a condição de infertilidade.

Um estudo chinês publicado em 2018 na revista científica “Fertility and Sterility” também discutiu a possível associação do tratamento de fertilização in vitro com o aumento dos riscos de malformação congênita quando comparados à gestação espontânea. Esse estudo analisou cerca de 2.243.125 nascimentos, sendo que 6732 nascimentos foram proporcionados através de técnicas de reprodução assistida: FIV e ICSI.

Esse estudo verificou que pode haver diferenças entre transferência de embriões a fresco vs embriões congelados, sendo que a transferência a fresco pode resultar em maior número de bebês com malformação.

Além disso, a técnica de ICSI (injeção de espermatozoide intracitoplasmática), geralmente indicada em casos de infertilidade masculina (baixo número de espermatozoides, problema de mobilidade ou morfologia, dificuldade para conseguir uma ejaculação) apresentou maior incidência de malformação em bebês do que a técnica de FIV (fertilização in vitro).

A técnica de ICSI consiste na introdução do espermatozoide previamente selecionado diretamente no óvulo através de um microscópio. O procedimento é realizado por um embriologista em um laboratório especializado.

Há vários fatores que podem estar envolvidos com a malformação fetal e é essencial que mais estudos sejam feitos para descobrir o quanto alguns fatores como gravidez múltipla/gravidez única; fertilidade/infertilidade; transferência a fresco/congelado; alteração dos gametas; FIV/ICSI; contribuem para a incidência de malformação.

Os estudos realizados até o momento apontam para infertilidade e alterações de óvulos e espermatozoides dos casais que procuram os tratamentos de reprodução assistida como o principal fator para desencadear malformações congênitas.

Se você estiver insegura, hoje é possível descobrir doenças genéticas antes mesmo de transferir o embrião. É um recurso valioso conhecido como PGD, em português, diagnóstico genético pré-implantacional. Esse exame é recomendado no processo de FIV quando os pais têm histórico de doenças na família, cariótipo alterado (alteração em cromossomos) ou aborto de repetição.

O PGD é realizado através de uma biópsia (retira-se uma célula para estudo) entre o 3º e 5º dias de evolução do embrião no laboratório. A análise no quinto dia, no qual o embrião é conhecido como blastocisto é mais precisa, porque possibilita a retirada de mais de uma célula.

 

Finalizamos mais um “Mitos e Verdades em FIV” concluindo que o principal fator para malformação congênita é a condição médica de infertilidade apresentada por casais que procuram as técnicas de reprodução assistida. Muitas vezes os óvulos ou espermatozoides já não estão mais tão bons para a fertilização quanto em casais férteis ou mais novos. Enfatizamos que a FIV é uma técnica muito segura e que não tem relação significativa com a malformação fetal, concluindo que isso é um mito!

Acompanhe nossos posts e sugira novos temas. Até a próxima.