Como preservar minha fertilidade se eu descobrir que estou com câncer?

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 14 milhões de pessoas são atingidas pela doença todos os anos e estima-se que em 2030, esse número chegue a 20 milhões de casos por ano. Essa doença não escolhe idade, classe social ou etnia.

Além de todas as complicações e mudanças que um diagnóstico positivo para câncer pode trazer, não podemos nos esquecer da fertilidade. Um questionário aplicado na cidade de São Paulo por especialistas em reprodução humana mostrou que 66% dos entrevistados não sabiam que o câncer ou o tratamento poderia ocasionar infertilidade e 78% das pessoas não sabiam que há técnicas e alternativas para preservar a fertilidade durante esse momento tão difícil. O resultado do questionário para profissionais da saúde foi ainda mais preocupante: somente 27% das pessoas que responderam sabiam sobre técnicas de preservação da fertilidade para pacientes com câncer.

Merecem atenção especial, os jovens que desenvolvem a doença. Eles representam aproximadamente 10% dos casos de câncer e têm bom prognóstico: entre 80% a 90% conseguem se curar e voltar à vida normal. Muitas vezes, esses jovens ainda não têm filhos e, futuramente, esse pode se tornar o sonho de um casal que tenha passado por essa situação. Portanto, é necessário pensar na fertilidade antes de iniciar o tratamento para o tumor.

 

Mas qual o motivo? Como o câncer ou o tratamento para o câncer pode afetar a fertilidade?

A quimioterapia, radioterapia ou cirurgia oncológica podem causar lesões nos ovários e testículos e comprometimento dos gametas (óvulos e espermatozoides). Tudo isso depende do estágio que o câncer está, de sua natureza (mais agressivo/menos agressivo) e da abordagem escolhida pelo oncologista.

 

E como posso preservar a minha fertilidade antes de iniciar o tratamento contra o câncer?

Temos três opções eficientes para mulheres:

  1. Congelamento de óvulos
  2. Congelamento de embriões
  3. Congelamento de tecido ovariano

 

O congelamento de óvulos é o mais procurado. As mulheres são submetidas às primeiras etapas da fertilização in vitro: estimulação ovariana controlada e aspiração de óvulos. A mulher recebe os remédios que estimulam os ovários chamados de gonadotrofinas. Esses remédios são injetáveis na maior parte das vezes e estimulam o ovário levando à ovulação. A ideia é ter o máximo de óvulos que a mulher tem potencial. Esses óvulos serão aspirados no centro cirúrgico através de um procedimento bem simples chamado aspiração folicular e, posteriormente, serão congelados. O tempo entre o diagnóstico do câncer e o início do tratamento depende exclusivamente do oncologista. É muito importante saber que existe uma alternativa de preservar a fertilidade independente do tempo que temos à disposição.

Outra opção é congelar os embriões. Para isso, a mulher tem que ter um parceiro e ter certeza que pretende constituir uma família com ele. O mesmo procedimento realizado para congelamento de óvulos é realizado e, assim que os óvulos são aspirados, são fertilizados em laboratório especializado com o espermatozoide do parceiro (obtido duas horas antes, através de masturbação) e são congelados.

Um estudo realizado em Harvard nesse ano constatou que mulheres com câncer não apresentaram diferenças significativas em relação ao número de óvulos aspirados, quando comparadas a mulheres que não tinham câncer, porém, mulheres que tinham câncer sistêmico (em fase de metástase) precisaram de uma dose maior de medicamentos para estimulação e tinham maiores riscos para cancelamento do ciclo (1)

Uma terceira opção para onco-preservação é realizar a retirada do córtex ovariano através de laparoscopia e congelar o tecido ovariano. Esse tecido deve ser recolocado na paciente após o término do tratamento do tumor e a paciente volta a ovular normalmente. No Brasil, temos poucos relatos dessa técnica, porém, no mundo, há um procedimento similar e inovador chamado in vitro activation no qual o cirurgião retira o ovário de pacientes que têm falência ovariana precoce para tratamento genético do ovário e recoloca o córtex ovariano na paciente. Vinte bebês já nasceram através dessa técnica.

Uma quarta opção seria a supressão ovariana. O objetivo dessa técnica é colocar o ovário em estado de repouso para que o quimioterápico não tenha tanta interferência nesse órgão. Essa supressão é realizada através de um remédio que bloqueia a produção hormonal, levando a paciente a uma menopausa temporária. Porém, ainda é muito controverso se essa técnica funciona de fato. Não sabemos o quanto realmente essa supressão protege os ovários dos efeitos devastadores da quimioterapia.

É muito importante dar atenção especial ao câncer de mama. O crescimento e a progressão desse tipo de câncer dependem de hormônios que o próprio corpo produz. O grande medo que se tinha é que ao estimular os ovários com as gonadotrofinas para o congelamento de óvulos/embriões, isso resultasse em progressão do câncer de mama. Porém, alguns estudos provam que não há diferenças na progressão do tumor em pacientes que realizaram a estimulação ovariana e as que não realizaram. Confira mais sobre esse assunto nesse texto. A alternativa utilizada é o uso de inibidores de aromatase, que promovem o estímulo para ovulação e mantêm os níveis do hormônio estrogênio baixos (esse é o principal hormônio responsável pela progressão de tumores de mama).

Portanto, se você está passando por esse momento intenso em busca do desaparecimento do câncer, mas deseja ter um filho no futuro, não se preocupe: a reprodução humana já tem alternativas para preservar sua fertilidade e realizar o sonho futuro de constituir uma família depois que você estiver recuperada. O congelamento de células e tecidos é uma solução viável e eficiente que poderá te proporcionar uma família como sempre sonhou.

  1. Dolinko AV, Farland LV, Missmer SA, Srouji SS, Racowsky C, Ginsburg ES. Responses to fertility treatment among patients with cancer: a retrospective cohort study. Fertil Res Pract. 2018 Apr 17.