Vou fazer Fertilização In Vitro e Tenho Caso de Câncer na Família.

Será que a Estimulação Ovariana pode Aumentar os Riscos de Eu Desenvolver um Câncer?

Hoje vamos falar sobre um assunto que pode tirar o sono das pacientes quando elas iniciam um tratamento de fertilização in vitro FIV. Será que a estimulação ovariana controlada pode aumentar os riscos para desenvolvimento de câncer, em especial o câncer de mama, que apresenta crescimento hormônio-dependente, ou pelo menos alguns casos? Para começar a falar sobre esse segundo tópico do nosso “Mitos e verdades em FIV”, vamos relembrar o que é estimulação ovariana controlada?

 

O que é estimulação ovariana controlada?

A estimulação ovariana controlada é uma das etapas iniciais do tratamento de fertilização in vitro (FIV) que tem como finalidade aumentar o numero de óvulos e consequentemente as taxas de sucesso do tratamento de Reprodução Humana. Nessa etapa, os ovários são estimulados a liberar mais óvulos no mesmo ciclo (entre 8-14 óvulos) do que liberariam em um ciclo normal (apenas 1 óvulo).

A estimulação ovariana é realizada através da administração de medicamentos conhecidos como gonadotrofinas exógenas. As doses das gonadotrofinas são determinadas pelo médico ginecologista, assim como todos os outros procedimentos da FIV. Os medicamentos devem ser administrados diariamente, no mesmo horário, na dosagem prescrita pelo seu médico. Um esquecimento na aplicação da medicação pode comprometer o tratamento de FIV e diminuir as chances de gravidez. Essa estimulação é realizada por um período entre 10 a 12 dias.

Nesse período, é necessário que o seu médico realize um acompanhamento personalizado para o seu tratamento, inclusive no monitoramento do crescimento dos óvulos. Esse cuidado evita que você desenvolva a Síndrome da Hiperestimulação Ovariana, que já explicamos aqui no blog. Realizamos uma média de 3 a 4 ultrassonografias para comprovar o crescimento dos folículos e acompanhar sua evolução. Se tudo estiver como esperado, o próximo procedimento a ser realizado será a aspiração folicular.

O desenvolvimento de vários folículos durante a estimulação ovariana faz com que os níveis do hormônio estradiol se elevem muito, podendo chegar até 2.000 pg/ml, uma concentração muito alta. Assim, uma preocupação começou a surgiu entre as pacientes: será que isso pode aumentar os riscos de desenvolver um tumor hormônio-dependente, como é o caso do câncer de mama?

O câncer de mama é uma doença multifatorial de grande preocupação para a saúde pública. Esse tipo de câncer pode progredir, ou seja, ele já está instalado e pode aumentar de tamanho, com o aumento de alguns hormônios como o estradiol, porém, altos níveis de estradiol não têm uma relação de causa com o câncer de mama. Em outras palavras, os altos níveis de hormônio presentes na estimulação ovariana não irão aumentar riscos de desenvolver um câncer para mulheres inférteis saudáveis.

Para se ter um câncer de mama, é necessário que haja uma mutação genética em uma célula da mama, geralmente uma célula tronco não diferenciada (aquela que tem capacidade para originar qualquer tecido no corpo). Se a mutação ocorrer, essa célula se diferenciará em uma célula de mama adulta alterada. As células mamárias não respondem a hormônios antes de se tornarem adultas. Isso significa que a real causa do câncer já estava instalada nessa célula antes mesmo de ela ser uma célula adulta. Então, essa mutação vai se propagar nas células da mama, se multiplicando muitas vezes até atingir a conformação de um tumor de mama. Portanto, a causa do câncer de mama não está relacionada à extra dose do hormônio estradiol, mas sim à mutação genética. Porém, se ele já estiver instalado, pode progredir de tamanho devido aos altos níveis de estradiol, já que esse tipo de câncer é hormônio-dependente.

Pesquisadores comprovaram essa não-causalidade entre o câncer de mama e os estímulos do ovário para tratamento de fertilização. Esse estudo¹ foi publicado em 2016 na revista científica Journal of the American Medical Association (JAMA) (em Português, “Revista da Associação Médica Americana), intitulado “Ovarian Stimulation for In Vitro Fertilization and Long-term Risk of Breast Cancer” (em Português, Estimulação Ovariana para Fertilização In Vitro e Riscos de Câncer de Mama a Longo Prazo).

Esse estudo foi realizado com 25.108 mulheres, sendo que 19.158 realizaram tratamento de FIV e 5950 realizaram outros tipos de tratamento para infertilidade como inseminação intrauterina ou citrato de clomifeno, na Holanda. Essas pacientes foram acompanhadas por um período de 21 anos.

Os riscos para desenvolver câncer de mama em pacientes que fizeram FIV não foram significativamente diferentes dos riscos para desenvolver o câncer apresentados pela população geral assim como dos riscos apresentados pelas pacientes que fizeram outros tipos de tratamento para infertilidade. Inclusive, os riscos foram ainda menores para pacientes que realizaram 7 ou mais ciclos de FIV quando comparadas àquelas que realizaram 1 a 2 ciclos de FIV.

Portanto, o tratamento de FIV quando comparado a outros tratamentos de infertilidade e até mesmo à população em geral, não aumentou os riscos para se desenvolver um câncer de mama, caracterizando esse nosso segundo tópico do “Mitos e Verdades em FIV” um mito.

 

Assim, chegamos ao fim de mais um “Mitos e Verdades em FIV” promovido pela Clínica de Medicina Reprodutiva Baby Center, comprovando a segurança do tratamento de fertilização in vitro em relação ao câncer de mama. Inclusive, já existem alguns estudos² ³ que estão viabilizando novos protocolos para FIV em pacientes que têm câncer de mama.

Agora você pode fazer sua estimulação ovariana tranquila, o primeiro passo para a realização do seu sonho. Até a próxima.

 

Referências:

van den Belt-Dusebout AW, Spaan M, Lambalk CB, Kortman M, Laven JS, van Santbrink EJ, van der Westerlaken LA, Cohlen BJ, Braat DD, Smeenk JM, Land JA, Goddijn M, van Golde RJ, van Rumste MM, Schats R, Józwiak K, Hauptmann M, Rookus MA, Burger CW, van Leeuwen FE. Ovarian Stimulation for In Vitro Fertilization and Long-term Risk of Breast Cancer. JAMA. 2016 Jul 19.

Cavagna F, Pontes A, Cavagna M, Dzik A, Donadio NF, Portela R, Nagai MT, Gebrim LH. A specific controlled ovarian stimulation (COS) protocol for fertility preservation in women with breast cancer undergoing neoadjuvant chemotherapy. Contemp Oncol (Pozn). 2017.

Shim YJ, Seol A, Lee D, Kim SK, Lee JR, Jee BC, Suh CS, Kim SH. The serum estradiol/oocyte ratio in patients with breast cancer undergoing ovarian stimulation with letrozole and gonadotropins. Obstet Gynecol Sci. 2018 Mar.